No dia 4 de outubro, mais de 497 mil seções eleitorais espalhadas por 2.641 zonas em todo o Brasil receberão 560.011 urnas eletrônicas para a votação. O pilar central que blinda esse maquinário contra invasões cibernéticas e tentativas de adulteração externa é a sua operação 100% desconectada de qualquer rede ou acesso à internet.
Isolamento digital e blindagem contra invasores
A garantia de imunidade contra ataques remotos baseia-se na ausência física de componentes de conexão, como placas de rede, Wi-Fi ou Bluetooth. Conforme explica Andrey Bernardes, secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF), o equipamento atua de modo totalmente isolado (offline) e é programado para rodar exclusivamente softwares certificados e homologados com antecedência.
O aparelho não atua sozinho: ele é a ponta visível de uma estrutura ampla e segura. Esse ecossistema reúne o cadastro oficial dos cidadãos aptos a votar, o registro de candidaturas, a transmissão por canais protegidos e o sistema de apuração final da Justiça Eleitoral. Para neutralizar a disseminação de boatos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) conta ainda com uma plataforma dedicada à verificação de conteúdos e checagem de fatos.
Criptografia avançada e garantia do sigilo do voto
O Brasil adota um sistema de primeira geração, caracterizado pelo registro exclusivamente digital do voto. De acordo com o engenheiro de computação Lucas Lago, do Instituto Aaron Swartz, a tecnologia acumulou sucessivas camadas de modernização. Entre elas está a gravação dos sufrágios de forma aleatória em uma tabela criptografada, o que impede matematicamente qualquer tentativa de associar o eleitor à sua respectiva escolha na cabine.
Para assegurar que nenhum programa malicioso seja inserido, algoritmos criptográficos executam checagens contínuas da assinatura digital do software. Se houver qualquer divergência em relação ao código lacrado e homologado pelos órgãos fiscalizadores, o sistema simplesmente não inicializa.
Auditorias públicas e checagens no dia do pleito
O processo de fiscalização do sistema eletrônico contempla cerca de 40 etapas de auditoria. A carga e a lacração dos aparelhos ocorrem em eventos públicos acompanhados por juízes eleitorais, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), membros do Ministério Público, partidos políticos, imprensa e entidades independentes.
Testes de segurança e verificação em tempo real
A rotina de escrutínio do sistema inclui procedimentos de alta complexidade técnica:
Um ano antes de cada eleição, a Justiça Eleitoral promove o Teste Público de Segurança (TPS), abrindo os sistemas para que especialistas, pesquisadores e instituições tentem invadir as urnas. Caso qualquer vulnerabilidade seja detectada, correções são aplicadas e submetidas a nova avaliação dos participantes.
Já na data da eleição, ocorre o Teste de Integridade. Urnas reais são sorteadas para uma votação simulada e auditada em paralelo, com o objetivo de comprovar que o voto digitado no teclado equivale exatamente ao que foi computado e impresso no Boletim de Urna (BU) — relatório emitido ao fim do pleito e afixado publicamente nas seções.
Três décadas de histórico sem fraudes
A confiabilidade do voto informatizado nacional foi apresentada pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, a delegações de 91 países e de entidades como a Organização das Nações Unidas (ONU), União Europeia e Liga dos Estados Árabes. Na oportunidade, o secretário de Tecnologia da Informação do TSE, Júlio Valente, reforçou que o país soma 30 anos de uso das urnas sem qualquer episódio comprovado de fraude na coleta ou apuração dos resultados.
Criada em 1932, a Justiça Eleitoral deu seus primeiros passos na informatização com o cadastro unificado em 1985 e projetos-piloto em Santa Catarina nos anos 1980. O modelo atual estreou oficialmente em 1996 e alcançou a totalidade do eleitorado no ano 2000, consolidando uma trajetória de evolução técnica contínua.